quarta-feira, janeiro 17

Ode à Cebola


Cebola,
luminosa redoma,
pétala a pétala
formou-se a tua formosura,
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra sombria
arredondou-se o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
deu-se o milagre
e quando apareceu
teu rude caule verde,
e nasceram
as tuas folhas como espadas no horto
a terra acumulou seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar distante
duplicou a magnólia
levantando-lhe os seios,
a terra
fez-te assim,
cebola,
clara como um planeta,
e destinada
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre
a mesa
dos pobres.

Generosa
Desfazes
teu globo de frescura
na consumação
fervente do cozido,
e o girão de cristal
ao calor inflamado do azeite
transforma-se em ondulada pluma de ouro.

Recordarei também como a tua influência
fecunda o amor da salada
e parece que contribui o céu
dando-te a fina forma do granizo
a celebrar a tua luz picada
sobre os hemisférios de um tomate.
Mas ao alcance
das mãos do povo,
regada com azeite,
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no duro caminho.
Estrela dos pobres,
fada madrinha
envolta
em delicado
papel, tu sais do solo,
eterna, intacta, pura
como semente de astros,
e ao cortar-te
a faca de cozinha
sobe a única lágrima
sem mágoa.
Fizeste-nos chorar mas sem sofrer.
Tudo o que existe celebrei, cebola,
mas para mim és
mais formosa que um pássaro
de plumas ofuscantes,
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina,
baile imóvel
de anémona nevada

e a fragância da terra inteira vive
na tua natureza cristalina.
(tradução de José Bento, in Antologia de Pablo Neruda, editorial Inova, 1973 - As mãos e os frutos)

Entre Tachos e Actores


Vinda de tempos obscuros em que a tecnologia assentava numa varinha mágica, um caldeirão e um livro de poções, quero desde já prestar o meu tributo ao meu colega Miguel Desgraça pela ideia, concepção e desenvolvimento tecnológico e bloguístico deste espaço, que se deve à sua muito competente iniciativa.
Assim sendo, também declaro aberta esta cozinha em que, por artes da alquimia, tentaremos ajudar os aspirantes a actores/colheita de 2007 a elaborarem aquele tratado de gastronomia teatral que esperamos que as PAPs venham a ser. Trabalhando entre tachos e actores, estamos aqui para fornecer toda a informação e apoio necessários para o trabalho que vão desenvolver, receber os vossos comentários e dúvidas, contando ainda com a colaboração sempre bem-vinda de colegas que queiram dizer de sua justiça. Os resultados dos vossos esforços, esses, esperamos por eles nas nossas caixas do correio, não aqui.
Prometemos tentar combinar tudo numa poção que, lá para Junho ou Julho, resulte em opíparo repasto a ser servido a amigos, convidados – e júri, lamento! – para satisfação geral.

Sinopses

Quem ainda não o fez, envie-me imediatamente as sinopses das personagens trágicas. As apresentações são amanhã e depois, não se esqueçam!

Bem-vindos

Está bem.
Começo eu.
Este é o blog d’ A Cozinha (a PAP deste ano, para os mais distraídos). Pela parte que me toca, sejam bem-vindos. O blog foi feito para vocês, de maneira que usem e abusem dele.
Estamos a 17 de Janeiro, o que quer dizer que nos próximos cinco meses (mais coisa, menos coisa) eu e a sinistra Bruxa das PAPs vamos andar por aqui (e pela EPTC, obviamente) a dar-vos cabo da cabeça.
Nada a que as meninas e os meninos não estejam habituados, certo?
Enfim...
Ainda estamos no início.