sábado, fevereiro 10

Cinco horas


Minha mesa do Café,
Quero-lhe tanto… A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e que fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao lado, a fosforeira
Diante do meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais)

Sobre ela posso escrever
Os meus versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Numa atitue alheada,
Sobre ela descanso os braços
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Mário de Sá-Carneiro

sexta-feira, fevereiro 9

Arnold Wesker por ele mesmo...

Bom, já vai sendo tempo de irem começando a conhecer o nosso empregado do mês. Por isso, a Bruxa dá hoje início à publicação de uma série de pequenos excertos da auto-biografia do rapaz, no intuito de vos ir familiarizando com alguns aspectos da sua vida e obra, que podem vir a ser importantes na preparação do vosso trabalho. Cá vai, então, o primeiro, escrito entre 1992-1994:
«Um amigo enviou-me um recorte do Times, com um artigo sobre Mozart:

A incapacidade de Mozart em conceber que poderia ser um falhanço, mesmo quando os seus concertos eram um desastre, constituía, de acordo com alguns psicólogos, uma parte essencial do seu génio. […] Falhanço e derrota não faziam parte do seu vocabulário e a noção de que o destino poderia estar contra ele, mesmo quando sofria uma série de reveses, era inconcebível…
Em 1790, após um concerto desastroso em Frankfurt, Mozart escreveu à mulher: “O meu concerto… foi um sucesso esplêndido do ponto de vista da honra e glória mas um fracasso no que toca a dinheiro. Infelizmente, um príncipe qualquer dava um déjeuner e as tropas de Hesse estavam em grandes manobras. Mas… eu estava em tão boa forma… que me imploraram que fizesse outro concerto no sábado.”
Releio material que já tinha posto de parte ou rejeitado e todas as minhas extremidades nervosas registam sentido e qualidade. Respeitei o meu material. O único conceito de arte para o qual tenho alguma – pouca – paciência é “arte como meio de auto-expressão”. O que prende o meu interesse no trabalho dos outros escritores é a qualidade do seu intelecto, das suas visões poéticas aplicadas à compreensão do seu material. Fico incomodado com escritores que limitam o seu material com as camisas-de-forças de maneirismos pessoais ou truques de diálogo reconhecíveis à primeira vista, e que mais tarde são erradamente assumidos como a sua “voz” ou o seu “estilo”. Não sou desses. Uma vez crente do poder e significado do meu material, deixo que este determine o seu estilo inerente.
Sempre se disse que o tempo o dirá. No entanto, o meu estado de espírito oscila entre tenebrosas dúvidas suicidas e uma profunda fé Mozartiana na concretização e bom resultado do meu trabalho.»

quinta-feira, fevereiro 8

Em dia de ressaca televisiva...


Já que a senhora ganhou um prémio ontem, vamos lá incluí-la na nossa selecção...

RITMOS


E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:
a prosódia da mão, a ervilha dançando
em redondilha.
Misturar ritmos em teia apertada: um vira
bem marcado pelo jazz, pas
de deux
: eu, ervilha e mais ninguém

De vez em quando o salto: disco sound
o vazio pós-moderno e sem sentido
Ah! hedónica ervilha tão sozinha
debaixo do fogão!

As irmãs recuperadas ainda em anos 20
o prazer da partilha: cebola, azeite
blues desconcertantes, metamorfose em
refogados rítmicos

(Debaixo do fogão
só o silêncio frio)

Ana Luísa Amaral

quarta-feira, fevereiro 7

Muita m...

É hoje! Vá lá, gente, vamos apoiar os nossos jovens actores no S. Luiz. Saindo do comboio no Cais do Sodré é só subir um bocadinho. A sessão começa às 21horas e não há-de acabar muito tarde...

terça-feira, fevereiro 6

A Marginal a Pé...



Ena! Parabéns a Cascais!

Façam o favor de se sentirem orgulhosos de trabalharem (?) e viverem numa vila que trabalha para o verde (passe a repetição). E a acção deste ano valeu-lhe um prémio que acaba de ser anunciado. Para quem não sabe, entre outras coisas, fez-se uma animada caminhada pela Marginal, entre o Estoril e a baía de Cascais. O desporto sénior apareceu em força.

Espero que, na próxima edição, haja muitos alunos da E.P.T.C. a fazer companhia aqui à Bruxa.

Os olhos também comem...

Sabem o que é uma estilista culinária? É aquela pessoa que prepara a comida para aguentar horas e horas de projectores durante um filme, uma sessão de fotografia ou a apresentação de um projecto, sem perder o ar apetitoso e fresco que nos faz desejar comê-la. Em Portugal temos algumas. Podem conhecê-las nesta cozinha
Já agora, para se entreterem, aqui vai um pequeno exercício de estilismo culinário para olearem esses neurónios.

Alunos da EPTC no Ciclo Novos Actores

Na próxima quarta-feira, pelas 21.00h, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, os alunos Tomás Alves, Joana Castro, Mafalda Castro, Luís Lobão e José Redondo vão apresentar no Ciclo Novos Actores 2007 a peça T.V. Você, da autoria de Luís Lobão. Uma vez que a entrada é livre, espera-se que a EPTC compareça em peso.
Desde já, enviamos aos cinco os nossos parabéns por terem chegado à fase final e, já agora, como se costuma dizer nestas ocasiões: muita merda.

domingo, fevereiro 4

Dia de (des)Aniversário

Hoje, na visita ao Museu Nacional do Teatro que quase todos vocês NÃO fizeram, a Bruxa e os ajudantes que com ela estiveram tiveram a oportunidade de ver fotografias d'A Cozinha, da Luzia Maria Martins. Estão guardadas nas catacumbas que o aniversário do museu permitiu ver. Foi muito interessante...

Um Macbeth de Fugir

Há coisas que nunca vou perceber, uma delas é como é que é possível pegar numa das melhores tragédias de sempre e transformá-la em nada, em zero.
Foi, sem dúvida, uma das piores coisas que vi na minha vida (o senhor encenador chama-se Bruno Bravo e deixo-lhe aqui duas informações e uma pergunta:
1) se o objectivo era uma recriação das encenações do século XVII, enganou-se redondamente, uma vez que de certeza que os King’s Men faziam aquilo de uma forma bem mais animada
2) O Macbeth não é nenhum bêbado, de maneira que, das duas uma: ou o senhor não percebeu a peça, ou o João Lagarto estava bêbado (e com falta de ar). De uma maneira ou de outra, a responsabilidade/ incompetência é sempre sua.
3) À saída ainda ouvi alguns actores a comentarem - entre risos - que «ele hoje nem esteve muito mal». Ora, se nem esteve muito mal, como é que será nos dias em que está péssimo?)

Alunos da EPTC, do 1º ao 3º ano, a não ser que queiram ver como é que não se deve representar/ encenar uma peça, até ao dia 15 de Março, fujam do Teatro da Trindade. Evitem este Macbeth a todo o custo, não vão ficar a pensar que aquilo é Shakespeare.

Notícias da Bruxa...

Após 24 horas de ausência da blogosfera devido a uma desactualização informática - como bruxa, lido melhor com o caldeirão, as retortas e o alambique do que com esta coisa que agora arranjaram... computador, certo? - eis-me de regresso para vos alimentar o espírito e confortar o coração.
Tal como prometido, às 10h15m, estarei à porta do Museu Nacional do Teatro.
Entretanto, aquele meu jovem colega muito famoso atrasou-se. Sendo já um recordista absoluto de pré-vendas, só chegará aos escaparates das livrarias no próximo dia 21 de Julho. Para mais notícias, é favor entrar em contacto directo com a bruxa-mor.
Ah! É verdade! Há novos produtos nas prateleiras da minha despensa.

Ementa

No dia 1 de Junho de 1912, um comensal anónimo, descreveu a ementa do almoço que acabara de comer:


«Sopa de marisco será
O que primeiro comerá;
E logo em seguida virão
Bons pastéis de camarão;
Emborque-lhe o branco vinho
Que o Monteiro dá, amiguinho.
Algum frango em cabidela
E pr’a apanhar a piela
Regue-o co’a pinga danada
Que antes da vitela assada
O cidadão tem provado.
Vem sobremesa com ralé
Bebe-se logo o café,
E, se mal jantado ficar,
Vá àquela parte cear.»

sexta-feira, fevereiro 2

Festa de Aniversário

Recorrendo a meios modernos - ai que saudades da bola de cristal! - falei para o Museu Nacional do Teatro e estão a contar connosco: os alunos e professores da EPTC serão muito bem vindos, no domingo.
Como não tenho vassouras que cheguem para todos - esgotaram-me os stocks por causa da próxima chegada do último Harry Potter - vou dar-lhes uma ou duas indicações acerca do caminho. Ponham-se no Campo Grande - a pé, a nado, de bicicleta, patins, skate, carro ou comboio - e depois é só seguirem pela Calçada de Carriche. De autocarro, de preferência, porque é sempre a subir... Nos segundos semáforos têm de virar à esquerda. É fácil, há setas a indicar o Museu. Se se perderem, têm o meu telemóvel. 10h15m da manhã, não se atrasem!

Molho de Rosas Vermelhas



12 rosas, de preferência vermelhas
12 castanhas
2 colheres de fécula de milho
2 gotas de essência de rosas
2 colheres de anis
2 colheres de mel
2 alhos
1 pythaia

Desprendem-se com muito cuidado as pétalas das rosas, procurando não picar os dedos, pois além de ser muito doloroso (picar-se), as pétalas podem ficar impregnadas de sangue e isto, além de alterar o sabor do prato, pode provocar reacções químicas muitíssimo perigosas.
[…]
Tita apertava as rosas com tal força contra o peito que, quando chegou à cozinha, as rosas, que inicialmente tinham uma cor rosada, já se tinham tornado vermelhas por causa do sangue das mãos e do peito de Tita. Tinha de pensar rapidamente no que fazer com elas. Estavam tão lindas! Era impossível deitá-las para o lixo, primeiro porque antes nunca tinha recebido flores e depois porque tinham sido dadas por Pedro. De repente ouviu claramente a voz de Nacha, ditando-lhe ao ouvido uma receita pré-hispânica em que se utilizavam pétalas de rosas. Tita já a tinha meio esquecida….
[…]
Depois de se desfolhar as pétalas moem-se no almofariz juntamente com o anis. À parte, põem-se a dourar as castanhas no comal,* previamente descascadas e cozidas na água. Depois, fazem-se em puré. Os alhos são finamente picados e alouram-se na manteiga; quando já estão louros junta-se-lhes o puré das castanhas, a pithaya** moída, o mel, as pétalas de rosa e sal a gosto. Para que o molho fique um pouco mais espesso podem juntar-se-lhe duas colherzinhas de fécula de milho. Por último, passa-se por um tamis*** e juntam-se-lhe só duas gotas de essência de rosas, não mais, pois corre-se o perigo de ficar demasiado perfumado e estragar o sabor. Assim que estiver apurado retira-se do lume.
[…]
O aroma da essência de rosas é tão penetrante que o almofariz que se utilizava para moer as pétalas ficava impregnado durante vários dias.

*Comal – Disco de barro ou de metal que se usa para cozer tortillas.
**Pithaya – Fruto silvestre tropical (cardo-ananás)
***Tamis - Peneira de fio de seda, de malha muito unida, usada em farmácia, laboratório e doçaria.

Laura Esquível, "Março. Codornizes em Pétalas de Rosas", Como Água para Chocolate, Porto, Edições Asa, 1993

quinta-feira, fevereiro 1

Para as dores de garganta, rouquidão e falta de voz...

O Gengibre (Zinziber officinale)

Para os chineses o rizoma seco e o fresco têm propriedades diferentes, sendo o fresco recomendado para tratar febres, dores musculares, de cabeça e constipações, enquanto seco é utilizado para aliviar o «excesso de frio interno», como pés e mãos, pulso fraco e palidez. Combate vários enjoos [é verdade!].
É um excelente estimulante da circulação, ajudando o sangue a afluir às extremidades do organismo, combate dores reumáticas e dores nas articulações em geral, também resultando em dores musculares pois aquece e relaxa os músculos [não sei…].
As compressas aplicadas sobre o peito são um bom remédio contra a tosse, ajudando a libertar a expectoração e actuando ao mesmo tempo como anti-inflamatório [é verdade!]. É também considerado afrodisíaco [Hmmm… não sei, não!]
É anti-oxidante e ajuda a prevenir a agregação de plaquetas, combate a falta de apetite mas é também um remédio para o emagrecimento pois ajuda a fundir as gorduras [so I wish…].
Em gargarejo ou em tisana, é muito útil para tratar as dores de garganta, amigdalites, problemas de rouquidão e perda de voz [há toda uma turma que esteve em Glasgow, que pode garantir que funciona. Não sei quantos litros de chá de gengibre fiz para aquele grupo de alunos!], combate ainda gripes, rinites, constipações (infusão bem quente com limão e mel) e provoca a sudação.

Preparação do chá: descascar e cortar lamelas finas de gengibre fresco e deixá-lo ferver na água durante um bocado, até o líquido ganhar um tom amarelado. Beber bem quente. Arde na garganta mas… faz muito bem!

Parabéns ao MNTeatro...

No próximo dia 4 de Fevereiro, o Museu Nacional do Teatro irá comemorar o seu 22º aniversário.
Para celebrar esta data iremos ter um conjunto de programas que constará do seguinte:
[Seguem-se várias hipóteses destinadas, sobretudo, a crianças pequenas. E depois]
Das 10h30m às 16h30m - Visitas guiadas ao acervo* - das oficinas de restauro às reservas, o visitante terá oportunidade para ver como se restaura, se conserva e se preserva a memória teatral.
Público alvo: público em geral
*acervo – conjunto de bens que integram o património de um indivíduo, de uma instituição, de uma nação.

E pronto! Está lançado o desafio. Se alguém quiser ir fazer esta visita, aqui a Bruxa estará à porta do dito e referido Museu às 10h15m. Será uma boa oportunidade de vermos um bocadinho do que se fez em teatro em Portugal. ‘bora lá?

O Debate

Eu sei que não tem nada a ver com a PAP, mas tem a ver com a Escola, e não queria deixar passar a oportunidade de enviar um forte abraço de parabéns ao Carlos Carranca pelo magnífico debate que organizou ontem na EPTC.
Concordo consigo. Os nossos alunos deram uma lição de civismo a muito boa gente (principalmente a um determinado fulano, que, mesmo assim, entre a má educação, a péssima retórica e um mais que duvidoso gosto na arte de bem vestir, ainda conseguiu retirar-se não só sem impropérios, mas até com bom senso).
Enfim, já passava das 18:30 e muitos ainda havia a querer continuar a discussão. Creio que isso diz tudo...
Um debate de grande interesse e, mais importante, deveras esclarecedor para toda a comunidade escolar.
Mais uma vez, os nossos (pois creio que falo em nome de todos os alunos e professores da EPTC) sinceros agradecimentos e parabéns.

quarta-feira, janeiro 31

A Despensa

Para não sobrecarregar este animado espaço, a Bruxa decidiu abrir mais um cantinho da sua cabana e mostrar-vos alguns dos produtos que vai comprando, recebendo e cozinhando a pensar naquele repasto final que acontecerá lá mais para o Verão. Por isso, sempre que houver novidades terão de se deslocar até à minha despensa.

Oiça Lá Ó Senhor Vinho


Oiça lá ó senhor vinho,
vai responder-me,
mas com
franqueza:
porque é que tira toda a firmeza
a quem
encontra no seu caminho?

Lá por beber um copinho a
Mais
até pessoas pacatas,
amigo vinho, em desalinho
vossa mercê faz andar de gatas!

É mau
Procedimento
e há intenção naquilo que faz.
Entra-se
em desequilíbrio,
não há equilíbrio que seja capaz.

As leis da Física falham
e a vertical
de qualquer lugar

oscila sem se deter
e deixa de ser
perpendicular.

"Eu já fui", responde o vinho,
"A
folha solta a brincar ao vento,
fui raio de sol no
firmamento
que trouxe a uva, doce carinho.

Ainda
guardo o calor do sol
e assim eu até dou vida,
aumento
o valor seja de quem for
na boa conta, peso e medida.

E só faço mal a quem
me julga ninguém
e faz
pouco de mim.
Quem me trata como água
é ofensa,
pago-a!
Eu cá sou assim."

Vossa mercê tem
Razão
e é ingratidão
falar mal do vinho.
E a
provar o que digo
vamos, meu amigo,
a mais um
copinho!

Alberto Janes para a voz de Amália Rodrigues

terça-feira, janeiro 30

ETA no aeródromo da Amoreira: 9 da manhã...

Numa curiosa mescla de crendice e fé, o primeiro dia do regresso da Bruxa das PAPs às salas da EPTC tem como orago S. João Bosco, inspirador dos pedagogos. Nem de propósito: era um João que sabia ensinar! Assim ele inspire aqui a Bruxa…

segunda-feira, janeiro 29