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terça-feira, março 22

Armário de especiarias e ervas aromáticas

Cerefólio, manjerona
malagueta, benjoim
noz moscada, cardamomo
salsa, sândalo, alecrim

erva doce, piripiri
cravinho, canela em pau
gengibre, menta, tomilho
pimpinela, colorau

mostarda, pó de chili
salva, cominhos, pimenta
basílico, salsifri

zimbro, funcho, açafrão
oregãos, coentros, caril
azedas, louro, estragão

Jorge de Sousa Braga, O Poeta Nu, Fenda, 1999

Apesar de este blogue já andar parado há algum tempo, não resisti e tirei este poema ao blogue da Cestas e Sábados. Muito obrigada às donas...

quarta-feira, maio 23

Entre as 7 maravilhas e o comer... ou não!

PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.


Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill

terça-feira, maio 15

Bom dia...


A Bruxa pede a todos que vão ver o que os clientes d"a Morte do Leiteiro" lá deixaram e convida-os a seguirem a sugestão...

quinta-feira, maio 10

A Morte do Leiteiro

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão subtil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quezilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge p’ra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve p’ra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei.
Por entre objectos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

Carlos Drummond de Andrade

Este foi "roubado" ao meu amigo Pedro. Sim, porque a Bruxa também tem amigos!

quinta-feira, maio 3

A cereja, a flor e os brincos...

Estamos em Maio, é tempo de cerejeiras em flor. Na Cova da Beira, entre a Gardunha e a Estrela, as cerejeiras enchem-se de flores, promessa de cerejinhas bem vermelhas lá para o início de Junho.



A cereja foi escrita por Cristovam Pavia (Lisboa, 1933-1968)...


Subitamente ficas na paisagem
E olho os teus olhos quentes e antigos...
Tens sol e sede, tens brincos de cerejas
E a pele cheirosa e fresca como água.


Subitamente sinto aquela sede
Dos sobreiros gretados, das estevas...
Mas perto, fonte ardente, dás frescura
À paisagem dormente e abrasadora!

in «35 Poemas» Poesia, Moraes Editores, Lisboa, 1982


A cereja foi cantada... e andou na política...


Esta famosíssima canção de amor francesa falando do tempo das cerejas é de Jean Baptist Clément (letra) e Antoine Renard (música) e foi escrita em 1866 sendo portanto anterior à Comuna de Paris (que durou de 26 de Março a 28 de Maio de 1871) e não é um canto revolucionário, mas uma cançoneta de amor. Algumas informações apontam porém para que a última estrofe, posteriormente dedicada, segundo o testemunho de Louise Michel, a uma enfermeira morta em defesa da Comuna, foi escrita sob a influência da «semana sangrenta» em que dezenas de milhar de combatentes da Comuna foram cruelmente massacrados. Foi pois neste contexto histórico que esta canção se tornou-se um símbolo das imensas esperanças que a Comuna de Paris tinha gerado. Yves Montand. Lisa Lasalle, Juliette Greco, Nana Mouskouri e Tino cantam O Tempo das Cerejas. Esta informação foi retirada de http://www.tempodascerejas.blogspot.com.


E, claro!, não podíamos estar num espaço culinário-teatral e não falar das cerejeiras mais teatrais de todas: as referidas na peça de Tchekhov, O Cerejal.

Em 2004, a Escola da Noite, companhia de Coimbra, apresentou a peça na Casa das Artes em Famalicão e aqui fica o que se escreveu:
O Cerejal foi a última criação de Anton Tchekhov, com estreia no Teatro de Arte de Moscovo há 100 anos, pouco antes de o autor morrer. Trata-se de uma obra que aborda e reflecte a realidade da época: uma Rússia longínqua que cruza o final do século XIX e que enfrenta novos tempos com o progresso industrial e capitalista a ditar novas regras económicas e sociais. Embebida por este ambiente de mudanças profundas, uma família da aristocracia rural é confrontada com a ruptura financeira que inviabiliza a manutenção da sua propriedade, de que faz parte um belo cerejal, fatia mais valiosa e querida do património. Perante a necessidade de tomar um decisão – vendê-lo para não o perder – a família vive momentos intensos de sofrimento e vê-se confrontada com o medo do próprio futuro. É, então, tempo de se projectar para a frente, pois a máquina do mundo não pára e surge uma nova ordem das coisas às quais é preciso dar resposta, ao mesmo tempo que o passado insiste em estar presente, nos lugares mais recônditos como a memória e os afectos. Pelo palco passa uma galeria muito diversa de personagens, que transmitem um ponto de vista múltiplo sobre uma realidade em que todas estão implicadas.

quinta-feira, abril 26

Queijadas de Sintra

Enfim, o maestro desceu, a correr, quase aos trambolhões, com um cache-nez de seda na mão, o guarda-chuva na outra, abotoando atarantadamente o paletó.
Quando vinha pulando os últimos degraus, uma voz esga­niçada de mulher gritou-lhe de cima:
- Olha não te esqueçam as queijadas!
Carlos sorriu. Os artistas, dizia ele, só amam na natureza os efeitos da linha e da cor; para se interessar pelo bem-estar de uma túlipa, para cuidar de um craveiro não sofra sede, para sentir mágoa de que a geada tenha queimado os primeiros rebentos das acácias - para isso só o burguês, o burguês que todas as manhãs desce ao seu quintal com um chapéu velho e um regador, e vê nas árvores e nas plantas uma outra família muda, porque ele e também responsável...
Cruges, que escutara distraidamente, exclamou:
- Diabo! É necessário que não me esqueçam as queijadas!
- Tive nojo! - exclamava o Alencar, rematando fogosa­mente a sua história. - Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos pés, cruzei os braços e disse-lhe: aí tem você a ben­gala, seu cobarde, a mim bastam-me as mãos!
- Que diabo, não me hão-de esquecer as queijadas! - murmurou Cruges, para si mesmo, afastando-se do parapeito.
- Agora o que tu deves ver, Cruges, é o palácio. Isso é que tem originalidade e cachet! Não e verdade, Alencar?..
- Eu vos digo, filhos - começou o autor de Elvira - historicamente falando...
- Eu tenho de comprar as queijadas - murmurou Cruges.
- Justamente! - exclamou Carlos. - Tens ainda as queijadas; é necessário não perder tempo; a caminho!
- Com mil raios! - exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta, com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou o trintanário.
O breque parara, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silêncio de charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbindo, exclamou:
- Esqueceram-me as queijadas!

Eça de Queirós, Os Maias

INGREDIENTES
MASSA

400g DE FARINHA DE TRIGO
100g DE AGUA

RECHEIO

1,5kg DE QUEIJO FRESCO SEM SAL
12 GEMAS DE OVOS
120g DE FARINHA DE TRIGO
800g DE AÇÚCAR BRANCO
60g DE COCO RALADO
3g DE CANELA
Massa

Junte a água a farinha e trabalhe bem a massa até que esta fique muito fina e consistente. Acrescente água caso seja necessário. Estenda até ficar com um milímetro de espessura. Depois, corte em rodelas de doze centímetros cada, dobrando-se as bordas e dando quatro cortes nas bordas. Deixe secar.

Recheio

Esmague o queijo com as gemas e o açúcar. Depois de muito bem misturados, juntam-se a farinha, o coco e a canela. Misture bem. Encha as caixas de massa e leve ao forno a cozer.

Esta receita foi extraída do livro de Antonio Maria de Oliveira Bello, dito Olleboma, Culinária Portuguesa, Assirio & Alvim, 1994.

segunda-feira, abril 23

Uma vitela assada que não desaparece...

"Começou-se então a sobremesa: a D. Josefina, muito contente, com a alegria de quem vai fazer uma surpresa depois de ter visto desaparecer todo o leite-creme, todo o arroz doce, e toda a sopa-doirada… levantou-se muito lépida e foi lá dentro, ao quarto de sua cunhada, buscar a lampreia imprevista, com que ela resolvera brindar o neófito na pessoa de seu mano Justino.
E foi, e quando todos, já esgotados os doces, se atiravam às frutas com um apetite de quem come o jantar, a D. Josefina apareceu a correr:
- Esperem aí! Esperem aí! Ainda aqui está isto, que eu ofereço ao meu mano em acção de graças por seu filho ter sido hoje feito cristão.
E apresentou no meio da mesa, ante o espanto geral, a terrível peça de vitela assada.

Era de mais. D. Palmira, que a fechara à chave no quarto de sua filha, olhava irada para D. Josefina, que a olhava também colérica por ela ter ido pôr, sem lhe dizer nada, a vitela ao pé da sua lampreia, ocasionando assim aquele ridículo equívoco.
[…]
- Nada… está provado que o único meio de acabar com ela é comê-la. Vamos a isto.
E pôs-se a comer a vitela como quem estava atacado de fome canina.
Justino deitou-lhe um olhar irado – já se habituara a contar com aquela vitela para o jantar do dia seguinte – enquanto o conselheiro, […] aprovava rindo a resolução do recebedor e se atirava também ao assado.
E o Dr. Fromigal seguiu o conselheiro, e as meninas Torres seguiram o Fromigal, e a vitela desapareceu num momento, apesar de ter vindo já depois dos doces e no meio das frutas”.


Gervásio LOBATO, Lisboa em Camisa

Uma amiga da Bruxa, que lhe mandou o excerto que acabaram de ler, também a informou de que Gervásio Lobato é outro autor que nasceu no dia 23 de Abril... de 1850! Este é português!

quinta-feira, abril 19

ESCOLHA

A noite, a minha vida adormecida,
o grão-silêncio, grão minha semente
adormecida, grão
com bacalhau, o pão, azeite e vinho…

O bacalhau sugere-me a insígnia
do capitão,
do grumete ou cão
da Terra Nova,
com felpa, botas e touca
de borracha
e com cheiro a sal e a fígado
oleificado.
Outros ingredientes cujo nome sei,
mas não lembro, grão,
semente oculta,
noite que tudo nos fornece,
nada me dá, mas aquece
o que em mim está, o que vive
nela semente, dente,
o ser vivo, esse, esse
irredutível, morte e minha glória.

[…]
Causas perdidas
são as que me dão vida.
Não quero endereçar-me a quem não sirvo:
o capitão, o cão, a face lívida,
a escuna perdida.
Com bacalhau, o grão, vinho e azeite,
tenho-me na vida,
meço o meu limite,
suo eternidade.

Ruy Cinatti, Conversa de Rotina

quarta-feira, abril 4

Caldeirada...

Em vésperas de caldeirada o outro dia,
Já que o peixe estava todo reunido,
Teve o goraz a ideia de falar à assembleia
No que foi muito aplaudido.

”Camaradas,” principia, “a ordem do dia
É tudo aquilo que for poluição
Porque o homem que é um tipo cabeçudo
Resolveu destruir tudo pois então

E com tal habilidade e intensidade
Nas fulguranças do génio
Que transforma a água pura numa espécie de mistura
Que nem tem oxigénio!”

”E diz ele que é o rei da criação
As coisas que a gente lhe ouve e tem que ser!
Mas a minha opinião,” diz o pargo capatão,
”Gostava de lha dizer.”

”Pois se a gente até se afoga,”
Grita a boga, “por o homem ter estragado o ambiente!
Deu cabo da criação esse pimpão
E isso não é decente!”

Diz do seu lugar “‘tá mal”, o carapau,
”Porque por estes caminhos
Certo vamos mais ou menos ficando todos pequenos
Assim como os ‘jaquinzinhos’.”

Diz então o camarão a certa altura:
”Mas o que é que nós ganhamos por falar?”
”Ó seu grande camarão,” pergunta então o cação
”Você nem quer refilar?”

”Se quer morrer,” diz a lula toda fula
Com a mania da cerveja e dos cafézes,
”Morra lá à sua vontade que assim seja
Para agradar aos fregueses.”

Diz nessa altura a sardinha prá tainha:
”Sabe a última do dia? A pescadinha já louca
Meteu o rabo na boca
O que é uma porcaria!”

”Peço a palavra,” gritou o caranguejo,
”Eu que tenho por mania observar
Tenho estudado a questão e vejo a poluição
Dia e noite a aumentar.

Cai do céu a água pura
E a criatura pensa que aquilo que é dele é monopólio
Vai a gente beber dela e a goela
Fica cheia de petróleo!

A terra e o mar são para o cidadão
Assim como o seu palácio
Se um dia lhe deito o dente
Pago tudo de repente ou eu não seja crustáceo!”

“É um tipo irresponsável,” grita o sável,
”O homem que tal aquele
Vai a proposta p’rá mesa ou respeita a natureza
Ou vamos todos a ele!”
O tema Caldeirada, escrito especialmente para Amália, por Alberto Janes, teve a sua primeira edição em 1977. Pode ser encontrado no CD O melhor de Amália vol. III.

quinta-feira, março 22

22 de Março...

E as celebrações continuam: hoje é Dia Mundial da Água.



As Nações Unidas consideraram este aspecto tão importante que criaram uma organização só para tratar dos assuntos da água: a UNWater. A celebração do Dia Mundial da Água é uma iniciativa que nasceu da Reunião sobre Ambiente e Desenvolvimento (UNCED) de 1992, ocorrida no Rio de Janeiro.
Por resolução, a Assembleia-Geral das Nações Unidas escolheu o dia 22 de Março para esta efeméride. Este dia devia celebrar-se a partir de 1993, segundo com as recomendações das Nações Unidas no capítulo 18 (Recursos de Água Potável) da Agenda 21.
Os Estados-membros foram convidados a desenvolver as recomendações da ONU e promover iniciativas concretas consideradas apropriadas ao contexto nacional de cada um. Em Portugal, cabe ao Instituto da Água coordenar as comemorações oficiais. Passou a ser celebrado regularmente a partir de 1994. Todos os anos, a ONU propõe um tema de reflexão. Aqui vai a lista:

1994 – “Cuidar dos nossos Recursos Hídricos é Tarefa de Todos”
1995 – “As Mulheres e a Água”
1996 – “Água para Cidades Sequiosas”
1997 – “Água no Mundo: Haverá que Chegue?”
1998 – “Águas Subterrâneas: o Recurso Invisível”
1999 – “Toda a gente vive a Jusante”
2000 – “Água para o Século XXI”
2001 – “Água e Saúde”
2002 – “Água para o Desenvolvimento”
2003 – “Água para o Futuro”
2004 – “Água e Desastres”
2005 – “Água para a Vida 2005-2015”
2006 – “Água e Cultura”
2007 – “Lidando com a Escassez de Água”


Portugal, um país virado ao mar, não podia deixar de ter uma série de museus ligados a ele. Por exemplo, em Cascais, existe um: o Museu do Mar - Rei D. Carlos. Conhecem? Aqui ficam algumas sugestões para um fim-de-semana ou umas férias...
Como sabem sem água não há vida mas tudo o que a Bruxa possa dizer é pouco e mal dito. Por isso, aqui ficam, mais uma vez, as palavras de António Gedeão.

SEDE DE ÁGUA

Em vez de morna crisálida
num casulo apoquentado,
antes ser canteiro regado
ao fim de uma tarde cálida.

Num sereno estar profundo,
empapado em poças de água,
que esta sede imensa trago-a
desde o princípio do mundo.

Movimento Perpétuo


LIÇÃO SOBRE A ÁGUA

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

Linhas de Força

terça-feira, março 20

21 de Março é um dia rico...

Celebram-se várias efemérides e todas elas nos interessam. Por isso, a Bruxa andou pelas auto-estradas da informação, atirou-se ao teclado, e aqui vai o resultado.

A primeira efeméride:
Em 1999, a UNESCO declarou o dia 21 de Março como o Dia Mundial da Poesia.
O objectivo é promover a escrita, leitura, publicação e ensino da poesia, “conferindo um novo reconhecimento e ímpeto aos movimentos poéticos nacionais, regionais e internacionais.” Pela poesia e o conhecimento das variadíssimas tradições líricas dos muitos povos alcançaremos um mundo melhor.

Vamos ler mais poesia! Os aprendizes da Amoreira, têm ainda uma vantagem sobre grande parte da outra gente: sendo aspirantes a actores podem dar voz aos poetas, lendo-os para que o resto do mundo ouça o que escreveram.


Hoje celebra-se também o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial.
Em 1960, a polícia da África do Sul abriu fogo sobre uma manifestação pacífica contra as leis do apartheid, tendo matado 69 pessoas. Ao proclamar este dia em 1966, a Assembleia-Geral da ONU pediu à comunidade internacional que redobrasse os seus esforços para eliminar todas as formas de discriminação racial. Sendo que n’A Cozinha existem alguns conflitos entre povos e se referem outros, talvez não seja má ideia pensarem no assunto.
Finalmente, last but not least, é ainda o Dia Mundial da Floresta. Vão até aqui para saber mais um bocadinho sobre esta iniciativa. No fim de contas, precisamos das árvores na cozinha também. Ou como é que íamos arranjar fruta?

E agora, para juntar o útil ao agradável: no ano em que se cumprem 10 anos sobre a morte desse professor e poeta que foi Rómulo de Carvalho/António Gedeão (1906-1997), nada mais apropriado para um blog de escola do que celebrar algumas efemérides com poemas seus. Aqui fica um... e amanhã haverá mais!



POEMA DAS ÁRVORES

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.

Novos Poemas Póstumos (1990)

segunda-feira, março 19

Homenagem a Cesário Verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!

Mário Cesariny de Vasconcelos

domingo, março 11

Cebola... Lembram-se da cebola?



A cebola é outra coisa.
Planta sem intimidade.
Retintamente cebola
à última cebolidade.
Acebolada por fora,
cebulona no tutano,
poderia entrar em si
sem se causar qualquer dano.

Em nós selva e estranhamento,
que uma pele mal sustenta
o nosso inferno uterino,
anatomia violenta,
e, na cebola, cebola,
um lisíssimo intestino.
Ia muitas vezes nua,
Até ao miolo mais fino.

Cebola ser sem contrários,
cebola bem sucedida,
na maior a mais pequena,
uma na outra metida,
e na seguinte outra ainda,
uma quarta e uma quinta.

Fuga em espiral para o centro,
eco no coro à medida.
Cebola eu bem te compreendo,
mais belo ventre do mundo,
tu própria em tuas auréolas
do teu sucesso profundo.

Em nós gorduras e nervos,
mucos, veias e recessos,
e ao kitsch do ser perfeito
é-nos vedado o acesso.
Wislawa Szymborska

(tradução de Júlio Sousa Gomes, in Paisagem com Grão de Areia, Relógio d'Água, 1998)

terça-feira, março 6

Um jantar na Lusitânia...


CORTESÃO - Antre essas cousas louçãs
peço que me consoleis.

LEDIÇA - Pinhoada comereis
ou caçoila de maçãs
vede vós o que quereis.

CORTESÃO - Peço esperança coitado
e favor favorecido.

LEDIÇA - Isso é coisa de adubado.

[...]

PAI - Levantaram-se os meninos
o mantão mandai guardar
que temos pera jantar?

MÃE - Beringelas e pepinos
e cabra curada ò ar.

PAI - E cenouras porque não
com favas e alcorouvia
e cominho e açafrão?

MÃE - Pois o turco gram sultão
não come tanta iguaria.

[...]

PAI - Assentai-vos a fiar
Saulinho e eu a coser
Lediça guise o jantar
como acabar de varrer
e a loiça de lavar.

quinta-feira, março 1

E mais uma contribuição teatral...



Da nossa aprendiza de feiticeira Celina, recemos a seguinte contribuição:



Velha vira a cabeça para a primeira DAMA INVISÍVEL - A receita de crepes da China? Um ovo de corvo, uma hora de amora, um pouco de suco gástrico.[...]"
As cadeiras, de Eugene Ionesco

domingo, fevereiro 25

Café com leite...

O letreiro que colocou no cachaço da vaca era um sinal exemplar da forma como os habitantes de Macondo estavam dispostos a lutar contra o esquecimento. "Isto é uma vaca. É preciso ordenhá-la todas as manhãs para que produza leite e o leite serve para se misturar no café e fazer café com leite."
Assim continuaram a viver numa realidade escorregadia, momentaneamente apanhada pelas palavras, mas que haveria de se escapar sem remédio quando esqueceram os valores da letra escrita.
Gabriel García Marques, Cem Anos de Solidão, [Capítulo 3]

segunda-feira, fevereiro 19

O arroz de favas do Jacinto...

Uma formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira, entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que Suas Incelências lhe perdoassem porque faltara tempo para o caldinho apurar… Jacinto ocupou a sede ancestral – e durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou – e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: - Está bom!

Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado – e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas!... Tentou todavia uma garfada tímida – e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:
- Óptimo! … Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!
E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio…
- Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!

O homem óptimo sorria, inteiramente desanuviado:
- Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até Suas Incelências se riam… Mas agora aqui, o sr. D. Jacinto, também vai engordar e enrijar!
O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava… E o meu Príncipe, na verdade parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada que ele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: - É divino! – Mas nada o entusiasmava como o vinho de Tormes, caindo de alto, da bojuda infusa verde – um vinho fresco, espero, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de optimismo na face, citou Virgílio:
- Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável destas serras?
A cidade e as serras, Eça de Queirós

sábado, fevereiro 10

Cinco horas


Minha mesa do Café,
Quero-lhe tanto… A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e que fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao lado, a fosforeira
Diante do meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais)

Sobre ela posso escrever
Os meus versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Numa atitue alheada,
Sobre ela descanso os braços
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Mário de Sá-Carneiro

quinta-feira, fevereiro 8

Em dia de ressaca televisiva...


Já que a senhora ganhou um prémio ontem, vamos lá incluí-la na nossa selecção...

RITMOS


E descascar ervilhas ao ritmo de um verso:
a prosódia da mão, a ervilha dançando
em redondilha.
Misturar ritmos em teia apertada: um vira
bem marcado pelo jazz, pas
de deux
: eu, ervilha e mais ninguém

De vez em quando o salto: disco sound
o vazio pós-moderno e sem sentido
Ah! hedónica ervilha tão sozinha
debaixo do fogão!

As irmãs recuperadas ainda em anos 20
o prazer da partilha: cebola, azeite
blues desconcertantes, metamorfose em
refogados rítmicos

(Debaixo do fogão
só o silêncio frio)

Ana Luísa Amaral

domingo, fevereiro 4

Ementa

No dia 1 de Junho de 1912, um comensal anónimo, descreveu a ementa do almoço que acabara de comer:


«Sopa de marisco será
O que primeiro comerá;
E logo em seguida virão
Bons pastéis de camarão;
Emborque-lhe o branco vinho
Que o Monteiro dá, amiguinho.
Algum frango em cabidela
E pr’a apanhar a piela
Regue-o co’a pinga danada
Que antes da vitela assada
O cidadão tem provado.
Vem sobremesa com ralé
Bebe-se logo o café,
E, se mal jantado ficar,
Vá àquela parte cear.»